Fazia um tempo que eu não parava e lia alguma coisa, com a vida corrida e tantas responsabilidades na vida é comum esquecer dos seus próprios interesses e passatempos, como meu amor por mangá e paixão por analisar minusciosamente detalhes que, normalmente, passam batido pelas pessoas. Contudo, Garota à Beira-Mar" (Umibe no Onnanoko), vulgo; o meu mais novo achado do
Inio Asano, foi a obra lida e cuidadosamente analisada.
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Um rápido disclaimer, essa obra fala e retrata algums temas sensíveis como depressão, isolamento social e sexualidade. Caso algum desses tópicos te dê gatilho eu recomendo que não veja a obra e nem a minha análise!
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O início nem se dá pelo começo, e sim pelo pós. Isobe, em seu primeiro ano, faz uma declaração a Sato e é rejeitado visto que ela tem interesse no Misaki, o mulherengo do colégio, entretanto após algum tempo ela recorre a ele para fazer um pedido um tanto, inesperado. E é nesse pedaço que tudo já começa dando errado.
Pelo visto eles são amigos há algum tempo e ocasionalmente o Isobe apaixonou-se, tudo bem a Sato não gostar dele de volta e nem dar um real motivo para isto, o ruim é aproveitar-se desta paixão juvenil para satisfazer-se sexualmente. Após ter relações com Misaki, o cara que ela gosta, uma chave de desamparo vira ao percber que não era o suficiente para ser gostada. Isobe pergunta se todo esse caso secreto é para ela sentir-se mais próxima do Misaki, e como só age por puro impulso de seus desejos, não consegue responder essa pergunta.
Toda cena em que eles tem alguma conversa nostálgica ou romântica acontece na praia, eles dois nunca chegam a tocar juntos no mar, apenas de formas separadas, o garoto sempre vê seu irmão morto saindo das águas no seus pesadelos, já a garota entra no mar no final da obra com um alegre sorriso despreocupado. A simbologia do mar nessas cenas, várias conforme o personagem, para a Sato ele tende a ser uma profunda conexão com a vida, sustento a espiritualidade, já Isobe, o lado negativo e mistério; ameaça, isolamento e destruição.
O retrato das relações sexuais entre eles por mais explícito que seja, causa o desprazer no leitor, as cenas não são um mero enfeite de apreço, e sim uma forma de conexão e franqueza, Sato demonstrar ser alguém superficial, fria e egoísta, e Isobe um menino muito além da depressão, um cara apaixonado mas não ingênuo. Esse cair de máscaras fica mais desconfortável a medida em que o leitor acompanha os dois lados da mesma moeda, ela é uma garota considerada bobinha, ingênua, preguiçosa e até tímida para seus colegas, uma visão totalmente superficial e feita para se encaixar socialmente. Ela não sabe bem o que quer da vida.
Entretanto, o menino é alguém totalmente oposto, não tenta se encaixar na sociedade e muito menos participa dela, por isso não tenta fingir ser alguém que não é, além de que tem mais interesse na vida e problemas das pessoas, procurando conhecer ela além de sua aparência e superfície.
Acredito que em alguns momentos, como este acima, ela também tentou se conectar com ele mesmo que de uma forma peculiar, todo problema que ele diz ter ela acaba mudando de assunto ou resolvendo através deste artifício, mas nem tudo pode ser resolvido desta maneira, principalmente quando o maior problema na vida do seu único amigo de verdade é a falta de conexão com as pessoas.
Não vou focar muito na figura do irmão porque apesar dele ser importante, sua relevância se dá mais pelo Isobe porque é a trama central da depressão dele, é porque quero que leiam o mangá, dito isso, as coisas mais importantes sobre o irmão morto dele é que; ele possuia um blog e virou um hikikomori otaku devido ao bullying que sofria na escola. O irmão dele é uma das coisas mais comentadas e ainda sim quando ela chega não percebe a beliche ou que os itens não são dele.
O pai de Isobe da uma câmera velha para ele contendo um hd velho de uma garota muito bonita e desconhecida, em paralelo, Sato está na escola conversando com suas amigas sobre o futuro, um detalhe muito interessante que pode ser tão óbvio a ponto de passar despercebido é; ela é uma garota medíocre, não é a mais bonita e nem a mais feia, não se destaca em nada, sua opinião é baseada nas demais e possue relações superficiais. Penso que essas meninas não representam nada além de status para Sato, algo a possuir por conformismo, pela norma exigir que você esteja cercado de pessoas semelhantes a você, entretanto a entrada de Isobe na vida dela quebra esse panorama, aonde ele, o " mais abaixo que os abaixo da média" não é uma opção romântica válida, visto a provável instabilidade que poderia ser causada em sua vidinha confortável. Ele precisa dela mais do que ela precise dele, então uma simples brincadeira de "você tem medo de ser trocada por uma garota que só vi por foto" não é tolerável se "ameaça" a sua dominância, é ela quem inicia as investidas sexuais e quem procura-o, ele é apenas um brinquedo.
As coisas mudam de figura depois de dois eventos, ela apagar as fotos da garota mistériosa do computador dele, e um colega da sala deles vê os dois saindo juntos. No ambiente escola, Sato e Isobe não olham nem um para o outro, o que contrata radicalmente com o fato deles transarem, ela ficou perturbada em saber que Kashima viu os dois minimamente interagindo por ameaçar sua reputação e status, algo que Isobe mostra não dar a mínima já que pra ele só era importante ela ter mexido mas fotos. Essa briga é muito importante para o relacionamento deles ao enxergarmos as facetas escondidas um do outro, ela está começando a apegar-se, ele está desapaixonando-se dela, é perceptível pelas recusas dela que eles nunca vão ter nada além de sexo, sem romance, sem beijos ou afeto e por mais que suas necessidades básicas sejam supridas, as suas emocionais persistentem, a ponto da única pessoa beneficiada nessa troca é apenas a menina.
O "término" é inevitável e necessário, esse tempo que eles ficam separados serve para clarificar os pensamentos da guria e expandir os do guri. Nesse meio tempo Kashima demonstra gosta da Sato deis da infância e ter ciúmes de Isobe, eles brigam fisicamente e pessoalmente sinto que este evento serviu para provar que ele não gosta mais dela e que no final ela vai acabar com alguém tão medíocre quanto, como observado no quadro posterior, ao invés dela tentar reconectar-se com Isobe apenas aceita a derrota e busca abrigo no que é familiar: o Misaki.
O fim já está muito bem encaminhado e projetado durante a leitura deste mangá, os eventos posteriores confirmam os traços mais marcantes dos protagonistas e os deixam tão caricatos para depois quebra-los, Isobe não vai atrás dela e começa os planos de vingança a aquele que fizeram bullying ao seu irmão, planos esses com intuito suicida e não há quem o pare. Sato sai com outras pessoas e quase fica com Misaki porém de um jeito desconfortável e forçado, sua evolução de personagem é mostrada aqui, antigamente ela teria aceitado esse tipo de relação para agrada-lo, agora, ela foge dessa festa e não quer ficar com o Kamishida, O jogado de beisebol ciumento e que gosta dela, só por conveniência ou satisfaçãoz ela assume para si que deseja o Isobe. Mas, novamente, sua única conhecida de afeto é o sexo.
Tudo já estava fadado deis do começo. Seus sentimentos de raiva e luto ficaram ainda mais forte depois que o amor sentido pela Sato passou, podem continuar transando o dia inteirinho que isso não fará aquela paixão voltar e nem será o modo mais adequado de dar afeto, apoio e carinho a alguém que perdeu isso com o tempo. O jogo virou e agora o brinquedo é ela, ao invés de eu explicar mais detalhadamente as causas que levaram a isso, gostaria de mostrar está linha de diálogos entre eles que esclarece essa nova dinâmica de relacionamento e o seu surgimento:
Como leitor, senti que o lá o que eles tentaram obter com isso ou começar apatir disso falhou e murchou rapidamente. Talvez em algum momento até houve esperança e uma possibilidade de final feliz, mas seja qual for o momento de sua existência, já não importa mais, nada será como antes...
Nota: guardem essa última frase
Passa-se um mês após todos esses eventos e a dualidade entre eles é algo notável, Saki está mais emotiva e carente, querendo fazer o possível para ser aquela quem Isobe gosta, enquanto ele, virou alguém frio e calculista cujo único objetivo é ter sua vingança. Essa parte do mangá fecha também algumas subtramas dps personagens secundários e terciários, que na minha visão, servem de crítica e materialização dos pensamentos e desejos dos personagens, como por exemplo uma das amigas da garota, que acaba dormindo com o mulherengo, este evento me fez creer que nunca foi exatamente sobre ela, que para o Misaki o importante é apenas o sexo sem compromisso, e se ela não quer isso há quem queira, especialmente alguém tão fútil e superficial quanto ela.
Também é muito interessante reparar que o simbolismo do mar volta em formato de fenômeno natural, uma tempestade com chuva a qual Isobe finalmente consegue atingir seu objetivo é livrar-se do fantasma do seu afogado irmão, enquanto Saki afunda-se no próprio vazio ao aceitar seus sentimentos por ele e a sua nova realidade. Conforme a leitura das páginas senti que ela até quis tentar mudar e corrigir tudo neste final, arrumar suas atitudes, deixar de ser uma garota superficial e assumir um compromisso com o único que lhe fez sentir algo a mais em sua monótona vida, entretanto, tais vontades são motivadas por razões puramente frívolas, tais motivações são para atingir objetivos específicos e não verdadeiramente mudar como pessoa. Isobe morre (simbolicamente), para ela e para si, e sua nova vida começa apartir do momento em que ele encontra com a tão sonhada "garota a beira mar"
Deixando a sua garota para trás...
É muito difícil comentar desse mangá sem levantar alguns pontos que agregam na trama, mas não de uma maneira forte e contínua, estão mais para interpretações que o próprio leitor pode tirar da situação que não necessariamente estará errado, incluindo a "garota a beira mar", sua ausência de nome já denota que a própria é alguma alegoria dos sentimentos de Isobe ou materialização do mar, como se ele fosse um personagem que indiretamente influência a trama. As questões do menino com a figura feminina são tão complexas que sendo sincera, não seria esquisito dizer que por exemplo Isobe pode ser queer, ao dizer usar as roupas de Saki para masturbar-se e transar com ela e depois dizer que por um momento ele já sonhou estar em seu lugar, me é enxergada como um conotação lgbtq, especialmente agora que a garota do mar está tão próximo dele após ele terminar sua relação com a Saki, sua liberdade não foi só do relacionamento, mas também de si.
Por um outro lado, nossa protagonista está presa a infelizes sentimentos. No outro dia tudo volta aos conformes, Saki fica surpresa de seu amigo estar vivo, mas acima de tudo, fica mais surpresa ainda sobre como ele mudou da noite pro dia, eles conversam de maneira superficial e fica nítida o quanto ela está incomodada dele agir como seus colegas agem, Isobe fala sobre ter encontrado a garota das fotos, que ele agora tem sonhos e objetivos de vida e está otimista, já Saki, tenta desencoraja-lo e fazer ele voltar a ser o mesmo de antes. Diante a tantos sentimentos há finalmente uma declaração, ela admite gostar dele e querer ser mais próxima do que isso e como está arrependida do relacionamento ter esfriado.
Sentimentos adolescentes são tão confusos e complicados, quem diria que transar com alguém que você não gosta faria você gostar dele e ele se desgostar de você, situações como está não são óbvias nem na vida adulta portanto apesar de condenar várias ações de ambos, consigo compreender como essa fase da vida é essencial para cometermos erros, aprendermos quem somos e o que queremos para nossas vidas, e o garoto, entende que não deseja estar com ela para sempre.
Vejo essa rejeição não como um avanço, e sim uma desistência do que te faz mal, o rancor e culpa do seu irmão ter se matado, o abandono do seus pais e o ressentimento que ele possue em ser usado pela Saki cai por terra agora, Isobe está começando a ter um pouco mais de respeito próprio, também há especulações sobre ele começar a gostar da outra garota, o que eu não acho tão plausível assim (por motivos que serão revelados mais tarde) e também mesmo que "ele gostasse dela" acredito que a menina serve apenas de alegoria, uma representação física da aceitação e mudança, tal qual o mar.
Outra mudança interessante é o fato de ela estar pedindo para ser beijada agora, o afeto tão sonhado e cobiçado por ele agora demonstra-se alcançável. Os papéis inverteram-se, ele não se deixa ser manipulado e usado e novamente a rejeita, sozinha e desolada, tudo que ela pode fazer é chorar, buscar conforto nas lágrimas, em outras águas que não sejam o mar, visto que o amor que ele transmitia antes, voltou em formato de dor.
Não distante, vendo o ponto de vista do garoto, o qual desmorona e deixa a máscara cair ao afastar-se de Saki, não dá para saber até onde a história que ele contou é verídica. Acredito que o autor quis deixar propositalmente ambíguo para nós, leitores, interpretarmos do nosso jeito, além de não ser algo tão relevante visto que as ações do Isobe mostraram ter consequências, essas judiciais, sendo o seu final ele sendo levado pela polícia para ser interrogado. Ele vai sem demonstrar relutância, afinal, sua vingança foi conquistada com sucesso e a figura do seu irmão já não o assombra mais, assim como o mar, que ganha um novo significado para o Isobe.
No último capítulo já passou um bom tempo após esses eventos, não sabemos o paradeiro de Isobe e Saki já está no segundo ano do ensino médio em um outro distrito com namorado novo, o Otsu, o qual tem como papel narrativo mostrar que a Saki mudou como pessoa, embora me pergunto se ela realmente mudou de dentro pra fora ou de fora pra dentro, caso não entendam a diferença desta sequência, na primeira ela finalmente aceita seu passado e os eventos ocorridos e se permite gostar e ser gosta da por quem ela é e não por quem aparenta ser e sem ser de uma maneira "tóxica" ou "manipulativa", e na segunda ela apenas aceita a superficialidade da vida e dos relacionamentos e continua neste ciclo só que de uma maneira mais velada. Não conseguo dizer com certeza qual dos dois lados ela está, porque ao mesmo tempo que é mostrado ela beijando o seu novo namorado (algo que ela não faria com Isobe porque não gostava dele até então, mas o seu novo namorado não parece muito diferente dele já que tem os mesmos gostos e um visual semelhante) ela também está escondendo um relacionamento da suas amigas e depois aparece beijando um antigo colega que gostava dela ( o tampinha do beisebol)
Em uma conversa com esse mesmo tampinha eles conversam sobre a vida e como tudo está muito diferente e como tudo não saiu exatamente como pensava, mas o que dá a entender em uma das frases dela é que apesar das esperanças no futuro, os problemas que eles tem não são nada porque sempre terá alguém com maiores, ou nesse caso sempre seremos insignificantes perante o universo, ou, até mesmo perante o mar, que é algo maior do que eles.
Essa é a última cena do mangá, gosto de pensar que o autor propositalmente colocou ela por conta do título e dos simbolismo, se no início o mar era amor e nostalgia, no final ele é aceitação do passado, futuro e incertezas que podem trazer até mesmo um pouco de dor. Assim como o cabelo, a água guarda lembranças as quais podem ser deixadas na areia, enterradas ou até mesmo levadas por serem profundas, tais questionamentos ficam muito mais ricos ao lembrar que nas primeiras cenas ela ia para a praia como se estivesse procurando alguma coisa, mas nunca encontrava nada porque não sabia exatamente o que queria achar, ela voltou dizendo procurar um cartão de memória perdido, o mesmo que fez Isobe ver pela primeira vez a outra menina, ela também nunca entra na água e os únicos momentos em que alguém faz isso é o irmão morto do Isobe, símbolo de assuntos não resolvidos, desconforto, medo e dúvida, mas, agora ela é vista com os pés na beira do mar, estando em contanto com a água, algo que particularmente levo como aceitação entre passado e presente, duas coisas bem interligadas neste quadrinho.
Contudo, foi uma boa leitura, quando você lê de primeira talvez fique um pouco decepcionado por perder seu tempo, aí quando você lê uma segunda, já começa a refletir se este romance vazio onde dois adolescentes usam um ao outro pra se completarem não fala, nem que seja um pouquinho, sobre você. Aqui, a perda de um amor não é algo extremamente trágico, pessoas mudam e durante a adolescência é comum que você magoe, use e seja usado e ainda sim permaneça sendo alguém indeciso e confuso, eles são apenas dois jovens no final de tudo, os quais passaram por uma fase, algo pequeno e temporário em relação ao resto das vidas deles. Este mangá serve de espelho para os leitores observarem se não são pessoas tão vazias e superficiais quanto os personagens retratados, se alguém realmente te conhece ou só conhece o seu corpo, rosto e o seu nome, se você não está em um ciclo vicioso onde com medo de se conhecer e molhar os pés, acaba ficando só na "beira do mar".
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Considerações finais:
Ufa! Eu já não tava aguentando mais escrever, era para sair esse post mais cedo ( em Maio), porém me empolguei tanto, tanto que acabou prolongando e virando essa resenha, análise? crítica? Posso ter deixado passar alguns simbolismos e ter entendido algumas cenas de outro jeito, mas, tudo que abordei foi em relação ao meu ponto de vista, não tem jeito certo (até onde eu saiba) de entender essa obra, quem sabe quando você ler possa ver as coisas por outra ótica, de um jeito mais simples ou complexo, vilanizando o Isobe ou a Saki e gostando do final talvez. Seja como for sua visão se puder deixar um comentário ou até quem sabe me enviar um e-mail para falar o que achou seria uma ação bastante apreciada da minha parte. Quem sabe trarei mais obras do Inio Asano ou outros oneshots que não vejo muitas análises na internet (◍•ᴗ•◍)b